Quando uma Tragédia nos Acorda: o Caso do Menino Brasileiro em Portugal e a Urgência de Educar para o Respeito
- Beatriz Samaia
- 18 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Nos últimos dias, uma notícia me tocou profundamente: o caso do menino brasileiro que perdeu dois dedos em Portugal após uma situação de bullying. É um episódio que dói só de imaginar e que carrega, por trás do choque, um convite urgente para repensarmos a forma como estamos educando nossas crianças.
Como educadora parental, e principalmente como mãe, eu sempre volto ao mesmo ponto: a infância é onde tudo começa, o caráter, os vínculos, a maneira como a criança aprende a lidar com diferenças, frustrações, poder e convivência. E quando vemos acontecimentos tão extremos, não dá para olhar apenas como um fato isolado. É preciso enxergar a raiz. Existe uma verdade que ainda é muito pouco conhecida: bullying não começa na escola, ele começa na formação emocional da criança. Pode até ser confortável imaginar que comportamentos agressivos surgem “do nada” ou que são responsabilidade exclusiva da escola. Mas não são.
Crianças aprendem como se relacionar em casa. Aprendem como lidar com emoções em casa e aprendem como tratar o outro observando o ambiente que as forma (e esse ambiente inclui família, convivência social e cultura emocional do lar).
Quando há violência, desrespeito, hierarquia do mais forte sobre o mais fraco, ou quando as emoções da criança são ignoradas, ridicularizadas ou punidas, isso molda a forma como ela se expressa no mundo.
E o contrário também é verdadeiro. Crianças que crescem em lares onde:
há acolhimento, mas também limites,
há respeito, mas também responsabilidade,
há diálogo, mas também consequências,
há modelos adultos que erram, mas assumem e reparam,
têm mais chances de desenvolver empatia, autocontrole e capacidade de resolver conflitos sem violência. Não é sobre criar crianças “perfeitas”, é sobre criar crianças humanas.
Outro ponto fundamental sobre esse assunto é que muitas vezes os pais começam a se preocupar com bullying quando a criança já está maior. Mas a psicologia do desenvolvimento e as neurociências são unânimes: os primeiros anos são a fase mais importante para formar os circuitos que regulam empatia, autocontrole e tomada de decisão.
Isso não significa que crianças pequenas têm culpa pelo que fazem, muito pelo contrário. Significa que é na primeira infância que elas precisam desesperadamente de adultos guiando, explicando, modelando e ensinando o que é respeito. Uma criança que não aprende a lidar com limites gentis, mas firmes, na infância, pode ter mais dificuldade de reconhecer limites sociais na convivência. Uma criança que não escuta um “não” com firmeza, mas também com amor, não aprende a tolerar frustrações. Uma criança que cresce ouvindo que é “melhor que os outros” aprende só a competir, não a conviver. E convivência é o que sustenta sociedades.
De fato, esse episódio é um extremo, e extremos sempre são exceções. Mas a raiz dele (a falta de educação emocional e moral) infelizmente é comum.
Pais que têm medo de impor limites.
Pais que romantizam uma infância sem frustrações.
Pais que não toleram desconforto e acabam ensinando os filhos a também não tolerarem.
Lares onde sentimentos são ignorados ou tratados como fraqueza.
Lares onde a criança aprende que força se afirma sobre o outro.
E também:
Lares corridos demais, ansiosos demais, cansados demais, que não conseguem parar para ensinar presença, empatia, escuta e olhar para o outro.
Isso tudo cria terreno fértil para comportamentos agressivos, competitivos, desumanizados. Educar é um ato profundamente moral. Não moralista, mas moral.
Não existe manual, não existe fórmula mágica. Mas existe caminho. E esse caminho começa todos os dias, nas pequenas decisões:
Ensinar que ninguém é melhor do que ninguém
Isso não é discurso bonito, é uma questão de convivência social. Crianças precisam crescer sabendo que valor não vem do desempenho, do poder, da força ou da aparência, mas da dignidade humana e da filiação em Deus.
Cuidar da forma como nós, adultos, tratamos e falamos do outro
Esse ponto é simples, mas profundamente transformador. A criança vê tudo. Ela observa como você fala do professor, da funcionária, do colega de trabalho, do vizinho, da pessoa que pensa diferente. Se você diminui, critica, ridiculariza ou desumaniza, isso se torna referência para ela. Se você demonstra respeito, mesmo quando precisa corrigir, discordar ou estabelecer limites, ela aprende que humanidade e dignidade não dependem de concordar ou gostar do outro.
Ensinar limites como forma de amor
Limite não é rigidez, não é dureza, é proteção, é ensino, é linguagem emocional. E crianças que aprendem limites com amor aprendem a se comportar com segurança, para si e para os outros. Elas entendem que convivência exige responsabilidade.
Por fim, estamos criando crianças que vão habitar o mesmo mundo, e isso deveria nos unir, não nos dividir. Quando uma tragédia como essa acontece, ela é um chamado coletivo (pais, educadores, sociedade) para lembrarmos que a formação de uma criança não é apenas sobre ela. É sobre todos.
Educar para empatia, respeito e convivência não é opcional, é urgente e é possível. Sempre. Com carinho, Beatriz Samaia.



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